terça-feira, 31 de dezembro de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013



Precisamos da presença circunstancial

do vento e das vagas.

 

Precisamos da subjectividade

das montanhas.

 

Precisamos da resiliência das árvores,

Da transcendência abissal do voo dos pássaros.

Do silêncio dos astros.

Dos campos em pousio.

Da geografia da memória.

 

Da dança (sem gravidade) dos astronautas.

Das cordas de um Arco (Íris.)

 

Precisamos, mas bem dispensaríamos,

Da inelutável contingência das palavras.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013



Rainer Maria Rilke, France Culture






aqui estamos.
face à manhã liquida
do oceano
e ao
silêncio azul
do céu e da água.

Iguais a nós próprios
e constantes.

pequenas réplicas redundantes
das marés,
das vagas,
dos cumulus,
dos nimbos.

da lua,
das cornucópias,
dos lençóis de conchas,
da placidez das dunas.

da efémera e translúcida areia transportada
de um deserto distante (e contudo tão próximo.)

aqui estamos
na inevitável confrontação com
nós próprios.

vivos,
presentes.
por vezes hesitantes.
Inteiros.






(obrigada.)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

navios, aviões, comboios


faltam-vos os aviões, os navios, as bicicletas, os elétricos, os comboios.
faltam-vos as lousas, o cheiro a giz, as canetas e os lápis de cor, os livros e os livros. a terra depois de chover e a maresia.
faltam-vos as viagens que vocês nunca fizeram.

(falta-vos o horizonte e a esperança e isso não se inventa.)


vai demorar tempo, a mudança.

Ponte 25 de Abril

Hoje.

sábado, 9 de novembro de 2013

sobre o contrato natural



" as nossas rivalidades humanas, podem pôr em perigo o planeta, e a vida, na sua totalidade.(...)"
Michel Serres, Retour au Contrat naturel

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

(des)encontros



um dia cruzei-me com um homem  alto
que não estava à altura.

moral da história:
a amplitude (da alma)
não é um questão de tamanho como todos bem sabemos.


mas há, também,
homens (e mulheres) altos
que têm o porte de árvores.
felizmente.

(andar no) mar



não gosto de colecionadores de borboletas,
não gosto de amadores de relógios
e de tempos apressados.

gosto de pessoas
com vista
para o mar.

cadeira


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

o mundo


em que vivemos.

da cidade



Quando desço a cidade, quase todos os dias, de uma das suas avenidas até ao Tejo, como hoje, dia cinzento e de chuva, e o meu humor a condizer,
espreito as ruas, molhadas de fresco por uma chuva muito fina, as árvores em fila, alinhadas, no meio da avenida.
Passam pessoas, com pressa ou com o vagar de quem não tem horários.
Passam pessoas, nessa correnteza.
E o asfalto húmido e brilhante a serpentear até ao sul, porque todas as cidades têm um sul, evidentemente. O daqui confina com o rio. E com o mar.
Mas nesse trajeto, quotidiano, desassombrado, há sempre um ponto de fuga.
Um bando de aves que risca o céu, num voo efémero e curto. Um voo por cima dos telhados, tangente à copa das árvores, perpendicular ao céu.
Uma mulher de sombrinha aberta.
Um senhor de grande idade que atravessa a rua, uma loja de esquina.
Um homem de turbante azul-marinho, o letreiro de uma casa de artigos de moda para senhora e crianças, que encerrou as suas portas há muito.
Uma tabacaria com os jornais e as revistas pendurados e os invariáveis títulos e noticias da atualidade, o mundo a insinuar-se nas letras grossas e no cheiro a tinta dos jornais.
O elétrico, o bem amado elétrico com as suas cores reluzentes, amarelo ou vermelho vivo, e com os seus viajantes, sempre diferentes. Com o seu ruído de animal marinho e de ovni, simultaneamente.
Uma franja do castelo, e um naipe de casas encaixadas na colina.

Não digo nada. Demoro o olhar nessa certeza. A de que haja o que houver, ela estará sempre ali. Refiro-me à cidade que dá pelo nome de Lisboa.

carta a um amigo


quando a lua namora
os telhados das casas e
espreita, lá de cima, a cidade
(desprendida, mas atenta,
 como sempre.
redonda, como por vezes.
e bela, como sempre.)
e o céu é de um azul tão puro
que apetece mergulhar,
e portanto, mergulhamos.


o rio é música de fundo.
o rio e os seus barcos,
cargueiros que partem e
paquebotes que acostam,
indolentemente.
cacilheiros que deslizam
com suavidade nas águas
(de prata, por vezes, de oiro, por vezes, de um azul
sempre diferente, quase sempre.)
e as sirenes dos barcos apitam
no seu longo e interminável canto de sirenes.
a tarde encosta-se ao espaldar desta cidade que é Lisboa.

não falo da tua ausência, amigo meu.
apresento-te a cidade
e confirmo
o seu estado.
de graça.


na rota do 28 (2)


pessoas


que fazem a cidade.
das outras não sei,
nem quero saber.